Revista Digital — Psicanálise e Ciências Humanas

Entre a solidão e o laço: o que a nova agenda da conexão social recoloca para a psicanálise

Pessoa sentada em uma praça observa ao longe um pequeno grupo reunido sob árvores no fim da tarde.

Em 30 de junho de 2025, a Organizacao Mundial da Saude publicou o relatorio da Commission on Social Connection com um diagnostico que merece atencao muito alem do campo sanitario. A OMS estima que cerca de 1 em cada 6 pessoas no mundo relata solidao, e que esse fenomeno esta associado a aproximadamente 871 mil mortes por ano. Pouco antes, em 27 de maio de 2025, a 78a Assembleia Mundial da Saude aprovou uma resolucao especifica sobre conexao social, transformando o tema em prioridade explicita de saude publica global. Mais tarde, a OECD reforcou esse deslocamento ao mostrar, em relatorio comparativo recente, que as interacoes presenciais vem caindo em varios paises e que jovens e homens passaram a aparecer, com mais nitidez, entre os grupos de maior deterioracao.

Tomados em conjunto, esses documentos fazem mais do que somar estatisticas. Eles constroem uma nova gramatica publica para nomear um sofrimento difuso, mas persistente, que atravessa a vida contemporanea: o enfraquecimento dos vinculos, a dificuldade de sustentar presenca, a erosao de formas compartilhadas de convivencia e o aumento da sensacao de desconexao mesmo quando ha comunicacao em excesso. Para a psicanalise, isso nao e um detalhe periferico. E um convite a recolocar o mal-estar em sua dimensao historica e social, sem diluir a singularidade do sujeito.

A distincao proposta pela OMS entre isolamento social e solidao e particularmente fecunda. O isolamento e descrito como uma condicao objetiva: poucas relacoes, poucos papeis, pouca interacao. A solidao, por sua vez, e definida como experiencia subjetiva e dolorosa, surgida do descompasso entre as conexoes que alguem tem e aquelas que deseja ou necessita. Essa diferenca importa porque impede uma leitura simplista. Uma vida cheia de contatos nao garante laco; uma agenda ocupada nao assegura pertencimento; uma rede extensa de mensagens nao elimina a experiencia intima de desencontro.

Esse ponto toca diretamente uma intuicao central da psicanalise: o sofrimento psiquico nao se mede apenas pela contagem dos vinculos, mas pela qualidade simbolica que eles assumem para cada sujeito. Nao e o numero de presencas que organiza uma existencia, e sim o lugar que o outro pode ocupar na economia do desejo, da fala e do reconhecimento. A vida contemporanea oferece uma quantidade inedita de meios de contato, mas isso convive com a fragilidade crescente dos enquadres que sustentam continuidade, escuta e demora. Ha conexao tecnica em abundancia; laco, nem sempre.

O relatorio da OECD ajuda a dar espessura social a esse impasse. Segundo o documento, em 21 paises europeus da organizacao, as interacoes presenciais diarias com amigos e familiares cairam de modo consistente entre 2006, 2015 e 2022, enquanto o contato remoto aumentou. Em 23 paises da OECD, 6% dos respondentes disseram sentir-se solitarios “na maior parte do tempo” ou “todo o tempo” nas quatro semanas anteriores ao levantamento. Em 22 paises europeus da organizacao, 8% afirmaram nao ter amigos proximos. O dado talvez mais sugestivo, porem, seja outro: jovens de 16 a 24 anos e homens, antes menos associados ao problema na percepcao publica, aparecem como grupos que registraram deterioracoes mais acentuadas.

Seria apressado concluir que estamos diante de uma epidemia uniforme, explicada por uma unica causa. A propria OECD insiste no carater multifatorial do problema: renda, desemprego, moradia, desenho urbano, envelhecimento, vida unipessoal, infraestrutura comunitaria e usos nocivos do ambiente digital se sobrepoem. A psicanalise ganha pouco quando tenta competir com esse nivel de descricao estrutural; ganha mais quando le como essas transformacoes reorganizam a experiencia subjetiva. O que muda quando o encontro tende a ser rapido, programado, mediado por plataforma e submetido a logica da performance? O que se altera quando a circulacao de palavras e constante, mas a possibilidade de elaboracao e escassa? O que acontece quando o sujeito e chamado a mostrar-se o tempo todo, mas encontra cada vez menos espacos em que possa, de fato, falar?

Talvez o interesse mais forte dessa nova agenda da conexao social esteja justamente ai: ela nos obriga a nao confundir sofrimento com fracasso individual. Quando a OMS aponta que a solidao atinge mais adolescentes e jovens, e quando a OECD registra queda da sociabilidade presencial, o debate deixa de caber apenas na moldura da “habilidade social” ou do “autocuidado”. O problema nao se esgota na biografia de cada um. Ele tambem passa pela textura das instituicoes, pelo tempo urbano, pela precariedade do trabalho, pela fragmentacao da atencao, pela conversao de quase toda experiencia em desempenho e exposicao.

Do ponto de vista psicanalitico, isso exige um cuidado duplo. O primeiro e nao patologizar automaticamente a solidao. Estar so nao e o mesmo que padecer de solidao, e a experiencia de recolhimento pode ser condicao de pensamento, criacao e elaboracao. O segundo e nao romantizar a autossuficiencia. A cultura contemporanea frequentemente vende independencia como ideal absoluto, quando, na pratica, produz sujeitos exaustos, pouco amparados e compelidos a gerir sozinhos angustias que tambem sao socialmente fabricadas. Entre a idealizacao da fusao e o mito da autonomia plena, a psicanalise continua lembrando que o sujeito so se constitui no campo do outro, mesmo quando esse encontro e falho, incompleto e atravessado por falta.

Ha ainda um aspecto politico importante. Quando a OMS e a Assembleia Mundial da Saude falam em conexao social, nao estao tratando apenas de terapia ou aconselhamento. As solucoes destacadas incluem campanhas publicas, politicas intersetoriais e estrategias comunitarias, alem de investimento em infraestrutura social: bibliotecas, parques, transporte, espacos de convivencia, grupos locais. A OECD reforca a mesma direcao ao argumentar que o desenho das cidades e a qualidade dos espacos comuns interferem concretamente nas oportunidades de encontro. Isso interessa a psicanalise porque recorda algo que as vezes se perde: o laco nao nasce no vazio. Ele depende de cenas, tempos, rituais e instituicoes minimas para se sustentar.

Nao se trata, evidentemente, de atribuir a politica urbana a tarefa de resolver o desamparo estrutural. A solidao nao desaparecera por decreto, e nenhum programa publico eliminara a dimensao irredutivel de falta que constitui a vida psiquica. Mas essa objecao nao deve servir de alibi para a indiferenca. Entre a solidao estrutural do sujeito e a solidao agravada por formas historicas de desamparo, ha diferencas decisivas. Uma sociedade pode nao abolir a falta, mas pode ampliar ou reduzir o grau de isolamento concreto, de desfiliacao, de indiferenca institucional e de impossibilidade pratica de encontro.

E por isso que a nova agenda internacional da conexao social merece ser lida com seriedade pela psicanalise. Nao porque ela substitua a clinica, nem porque ofereca uma nova palavra-mestra para explicar todo sofrimento, mas porque recoloca o problema do laco em uma escala coletiva e verificavel. Ela mostra que o mal-estar contemporaneo nao diz respeito apenas ao intimo; diz respeito tambem a arquitetura das relacoes, a materialidade dos cotidianos e a qualidade dos ambientes em que a vida se desenrola.

Num tempo em que a hipercomunicacao convive com experiencias intensas de desamparo, a contribuicao mais rigorosa da psicanalise talvez seja esta: recusar tanto a reducao estatistica do sujeito quanto a privatizacao completa do sofrimento. A solidao pode ser vivida em primeira pessoa, mas nao e produzida apenas ali. Entre o intimo e o social, entre o sintoma e a cultura, entre a fala singular e as formas historicas do convivio, abre-se um campo decisivo de leitura. E nesse intervalo que a discussao contemporanea sobre conexao social volta a interpelar a psicanalise, lembrando que o laco nao e um adorno da vida psiquica. Ele e uma de suas condicoes.

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