Resumo: A inteligência artificial já participa de tarefas que antes exigiam busca, comparação e escrita. A rapidez de uma resposta, porém, não equivale ao trabalho psíquico de formular uma pergunta, sustentar uma dúvida e reconhecer o que está em jogo numa escolha. Este editorial pergunta o que acontece quando depositamos numa máquina a expectativa de que ela saiba por nós. Com base em orientações da UNESCO e da OMS, o texto defende uma relação com a tecnologia que preserve autonomia, responsabilidade, privacidade e elaboração.
Palavras-chave: inteligência artificial; psicanálise; pensamento; autonomia; tecnologia; escuta; dúvida.
A resposta chega antes da pergunta
Há uma cena cada vez mais comum: diante de uma dúvida, alguém abre uma ferramenta de inteligência artificial e recebe, em poucos segundos, uma resposta organizada. Ela pode sugerir um roteiro, resumir um assunto, reescrever uma mensagem ou oferecer palavras para um mal-estar difícil de nomear.
Esse intervalo, no entanto, não é apenas um obstáculo. Muitas vezes, é nele que uma pergunta se transforma. Antes de saber exatamente o que quer dizer, uma pessoa hesita, mistura lembranças e percebe que o problema não era somente obter informação. A rapidez pode ajudar a começar uma tarefa, mas também pode encobrir a diferença entre receber uma frase pronta e produzir um pensamento próprio.
Velocidade não é elaboração
A psicanálise não trata o pensamento como uma operação de respostas corretas. Uma associação pode levar a outra por caminhos imprevistos; um detalhe aparentemente secundário pode alterar o sentido de uma história; uma contradição pode ser mais reveladora do que uma conclusão elegante. Elaborar não é acumular explicações, mas permitir que uma experiência seja atravessada por tempo, linguagem e conflito.
Por isso, a questão não é decidir se toda ferramenta digital faz bem ou mal. A pergunta mais precisa é: em que momento ela entra? Pode funcionar como apoio para organizar referências, testar possibilidades e tornar uma tarefa mais acessível. Mas, quando a primeira resposta é tomada como a última palavra, o recurso deixa de ampliar a capacidade de pensar e passa a ocupar o lugar da pergunta. A eficiência de uma operação não mede, sozinha, o valor do que foi compreendido.
A fantasia de um outro que sabe
Existe algo de antigo na promessa de uma máquina que responde a tudo. Ela retoma a fantasia de um outro sem falta, sempre disponível e capaz de transformar incerteza em orientação. Para quem está angustiado, essa promessa pode ser especialmente atraente: basta escrever o problema e esperar que uma autoridade apareça em forma de texto.
Mas uma resposta bem construída não é o mesmo que uma posição de saber. Sistemas de linguagem podem produzir frases plausíveis e ainda assim conter erros, misturar fontes ou inventar uma segurança que não corresponde à realidade. A OMS chama atenção justamente para esse risco no uso de modelos de linguagem em saúde: uma resposta pode soar autorizada e estar completamente equivocada. O problema não é apenas técnico. Quando a forma convincente é confundida com verdade, a própria relação com a dúvida se empobrece.
O que se deposita na máquina
Usar uma ferramenta também é uma forma de endereçar algo. Uma pessoa pode pedir ajuda para escrever uma mensagem porque teme a reação do destinatário; pode solicitar uma interpretação para evitar o desconforto de permanecer diante de uma ambiguidade. O comando digitado não revela tudo, mas mostra uma expectativa dirigida a um interlocutor.
Essa expectativa merece ser examinada sem moralismo. Não se trata de culpar quem procura uma resposta automática, nem de idealizar um passado sem tecnologia. Trata-se de observar o que é colocado fora de si: a decisão, a responsabilidade, a escolha das palavras ou o direito de não concluir ainda. Quando a máquina é usada para iniciar um trabalho, ela pode devolver material para a reflexão. Quando é convocada para decidir no lugar da pessoa, a dependência tende a se esconder sob a aparência de praticidade.
Autonomia não é fazer tudo sozinho
Preservar a autonomia não significa rejeitar toda ajuda externa. Uma pessoa pode consultar um professor, um profissional de saúde, um livro, um amigo ou uma ferramenta digital. A diferença está em continuar podendo avaliar, discordar, pedir explicações e assumir as consequências. Autonomia é manter uma relação ativa com os apoios.
A UNESCO coloca direitos humanos, dignidade, transparência e supervisão humana no centro de sua recomendação sobre a ética da inteligência artificial. Essa orientação oferece um critério importante: nenhum ganho de conveniência deveria transformar uma pessoa em destinatária de uma decisão que não consegue compreender ou questionar.
Quando a ferramenta entra no cuidado
O cuidado em saúde torna essa questão mais urgente. Uma conversa sobre sofrimento não é apenas um pedido de conteúdo; envolve contexto, risco, história e responsabilidade. A OMS recomenda cautela com modelos de linguagem em saúde, avaliação rigorosa, supervisão especializada, proteção de dados e evidência clara de benefício antes de uma adoção ampla. Isso limita a tentação de transformar um sistema conversacional em terapeuta, diagnóstico ou árbitro de uma crise.
Uma ferramenta pode ajudar alguém a organizar perguntas para levar a um profissional ou encontrar informações gerais em linguagem mais acessível. Ela não deve ser tratada como substituta de uma avaliação clínica, de uma rede de proteção ou de uma decisão compartilhada com pessoas responsáveis. Também não é prudente inserir dados íntimos sem saber como serão armazenados, utilizados ou combinados com outras informações. A privacidade não é um detalhe administrativo quando o material envolve o corpo, a sexualidade, a história familiar ou a saúde mental.
A dúvida como trabalho
Em uma cultura que valoriza respostas instantâneas, sustentar uma dúvida pode parecer improdutivo. A pessoa que não conclui logo é vista como indecisa; a conversa que precisa de tempo é substituída por uma síntese. No entanto, nem toda demora é falha. Há dúvidas que protegem contra uma escolha precipitada e permitem que uma experiência encontre uma forma menos repetitiva de ser contada.
A orientação da UNESCO para o uso da IA generativa em educação e pesquisa propõe uma visão centrada no ser humano, com proteção da privacidade e desenvolvimento de capacidades para que as pessoas possam usar essas tecnologias de modo significativo. O ponto é decisivo: aprender com uma ferramenta não equivale a entregar a ela a tarefa de aprender. A resposta pode ser um rascunho, um contraste, uma hipótese. O trabalho de conferir, relacionar e dizer “isso não expressa o que eu quis dizer” continua sendo humano.
O laço que não cabe no comando
A questão psicanalítica diante da inteligência artificial não é descobrir se a máquina tem uma interioridade escondida. É observar o que os sujeitos fazem com a presença dela. Em alguns casos, a ferramenta poderá abrir tempo e acesso; em outros, reforçará a fuga da incerteza e a crença em uma autoridade sem rosto. A diferença não está apenas no sistema, mas no uso, no contexto e na possibilidade de manter a pergunta viva.
Uma tecnologia para devolver perguntas
Talvez a relação mais fértil com a inteligência artificial seja aquela que devolve ao usuário mais perguntas do que certezas. Depois de receber uma sugestão, ainda é preciso perguntar de onde veio a informação, o que ficou de fora, quem pode ser prejudicado, qual dado foi exposto e que parte da decisão não pode ser delegada. Isso desacelera o automatismo sem exigir uma recusa ingênua da tecnologia.
Pensar com uma máquina não é pensar menos nem obedecer mais depressa. É manter distância suficiente para examinar, corrigir ou recusar a resposta. A dúvida não é inimiga da inovação: mantém a tecnologia ligada à responsabilidade. Quando ela ajuda a formular o que ainda não sabemos, pode ampliar o pensamento. Quando pretende falar em nosso nome, é preciso recuperar a palavra.
Referências
- UNESCO. Recommendation on the Ethics of Artificial Intelligence. Direitos humanos, dignidade, transparência e supervisão humana.
- UNESCO. Guidance for generative AI in education and research. Uso centrado no ser humano, privacidade e desenvolvimento de capacidades.
- Organização Mundial da Saúde. WHO calls for safe and ethical AI for health. Autonomia, privacidade, erros plausíveis, supervisão e avaliação de modelos de linguagem.