Resumo: A moradia não é apenas o cenário da vida privada. Quando o custo, a instabilidade, a superlotação ou a ameaça de despejo reorganizam o cotidiano, o sofrimento psíquico aparece também como efeito de uma condição social. A psicanálise pode escutar essa experiência sem transformar a precariedade em falha individual.
Há frases que chegam à escuta carregadas de uma geografia: “não consigo chamar este lugar de casa”, “a qualquer momento vou precisar sair”, “não tenho espaço para nada”. À primeira vista, parecem descrições da vida material. Mas uma moradia não é somente um endereço, assim como perder estabilidade não significa apenas trocar de quarto ou de contrato. A casa participa da maneira como o tempo é vivido, como os vínculos se organizam e como alguém encontra um intervalo entre o mundo e a própria intimidade.
Moradia também é uma questão de saúde mental
O relatório Understanding and addressing inequalities in mental health, publicado pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) em 2025, reúne dados e políticas de 37 países. Ao discutir os determinantes das desigualdades em saúde mental, o documento observa que o lugar onde alguém vive se relaciona ao sofrimento por meio do abrigo, da segurança e da privacidade, mas também pelas condições do bairro, pelos espaços verdes, pela localização e pelo ambiente social.
Esse ponto é importante porque desloca a conversa de uma oposição simplista entre “problema psicológico” e “problema habitacional”. A falta de estabilidade pode aumentar a tensão, limitar escolhas e dificultar o acesso a redes de cuidado. Ao mesmo tempo, uma condição de sofrimento psíquico pode reduzir renda, dificultar a permanência no trabalho e tornar mais difícil obter uma moradia estável. A relação é bidirecional. Não há, portanto, uma linha reta que comece na fragilidade individual e termine na perda da casa.
A própria Organização Mundial da Saúde (OMS), em sua orientação de 2025 para políticas e planos de ação em saúde mental, inclui a moradia entre os determinantes sociais e estruturais que precisam ser considerados pelos sistemas públicos. A recomendação não reduz a saúde mental à oferta de consultas. Ela chama atenção para pobreza, educação, emprego e habitação, além de defender políticas centradas em direitos e articuladas entre setores. O cuidado, nesse enquadramento, não pode ser separado das condições que tornam a vida habitável.
O que se perde quando tudo é provisório
Insegurança habitacional não é sinônimo de ausência total de teto. Ela pode aparecer na ameaça de despejo, na superlotação, no contrato que termina sem garantia de renovação, na necessidade de dividir um cômodo sem privacidade, no medo de não conseguir pagar a próxima parcela ou na obrigação de viver longe de serviços e pessoas importantes. São experiências diferentes, mas que têm em comum a dificuldade de transformar um espaço em base relativamente confiável.
Uma casa oferece, entre outras coisas, a possibilidade de deixar um objeto em determinado lugar e encontrá-lo depois; de repetir um gesto sem precisar renegociar todas as condições; de fechar uma porta; de receber alguém; de cuidar de uma lembrança. Esses pequenos atos não são acessórios. Eles dão ao cotidiano uma espessura temporal. Quando a moradia é percebida como provisória, o presente pode ficar ocupado pela administração da saída. Arrumar uma mala, escolher o que cabe, evitar marcas nas paredes e não investir em algo que talvez precise ser abandonado são formas silenciosas de viver sob prazo.
Em termos psicanalíticos, pode-se dizer que a casa funciona como uma moldura para a experiência, sem que isso transforme o espaço em causa única de qualquer sofrimento. A moldura permite que algo se repita, seja elaborado e ganhe um lugar na história de quem vive ali. Se ela se rompe de forma contínua, o psiquismo pode ficar convocado a responder ao urgente: onde dormir, quanto tempo permanecer, o que será possível levar. Não se trata de diagnosticar uma pessoa a partir de sua moradia, mas de reconhecer que a instabilidade social também produz efeitos na vida psíquica.
Quando a precariedade vira culpa
Uma das formas mais cruéis de sofrimento contemporâneo é a transformação de um impasse coletivo em falha moral. A pessoa que não consegue pagar o aluguel é convidada a administrar melhor a própria ansiedade. Quem mora em condições apertadas recebe conselhos sobre organização. Quem muda repetidamente de endereço é descrito como alguém sem raízes, como se a continuidade dependesse apenas de disciplina e força de vontade.
Esse deslocamento produz uma espécie de dupla cobrança: é preciso suportar a instabilidade e, ao mesmo tempo, não demonstrar seus efeitos. A linguagem da resiliência, quando usada sem atenção às desigualdades, pode funcionar como uma exigência de adaptação infinita. O sofrimento passa a ser lido como incapacidade de lidar com o que, na realidade, permanece sem solução no plano material.
A escuta psicanalítica pode oferecer uma resistência a essa redução. Ela não precisa escolher entre considerar a singularidade de cada história e reconhecer as condições sociais que a atravessam. O modo como uma pessoa fala de sua casa, de seus vizinhos, do barulho, da falta de espaço ou da ameaça de mudança não é uma simples ilustração de estatísticas. Mas também não deve ser arrancado do contexto que dá peso a essas palavras.
Da casa ao bairro: o espaço público também acolhe
A experiência de habitar não termina na porta. A qualidade do entorno, a possibilidade de caminhar, encontrar serviços e circular com alguma segurança interferem na sensação de pertencimento. A OMS define a moradia saudável de maneira ampla: ela deve oferecer não apenas proteção física, mas também condições de bem-estar mental e social, incluindo uma sensação de pertencimento, segurança e privacidade. O documento também considera a comunidade e o acesso a serviços, áreas verdes e transporte.
Isso ajuda a compreender por que uma casa aparentemente adequada pode continuar sendo vivida como isolamento quando está desconectada de tudo. E por que uma praça, uma biblioteca, uma escola, um centro cultural ou um serviço de saúde podem funcionar como extensões importantes da vida comum. A cidade não é um cenário neutro. Ela distribui proximidades e distâncias, produz encontros e impedimentos, oferece lugares de permanência ou empurra determinadas pessoas para a circulação incessante.
Falar de moradia como questão psíquica não significa psicologizar a política habitacional. Significa reconhecer que decisões sobre aluguel, transporte, zoneamento, saneamento e espaço público chegam ao corpo e à linguagem. A precariedade de um endereço pode se transformar em insônia, irritabilidade, retraimento ou sensação de não ter futuro, mas nenhum desses sinais autoriza a conclusão de que a origem está apenas dentro do indivíduo.
O direito a um lugar no mundo
Uma política de saúde mental comprometida com direitos precisa incluir as condições concretas de habitação. Isso não substitui o cuidado clínico, nem transforma cada dificuldade social em diagnóstico. Apenas impede que o cuidado seja imaginado como uma intervenção isolada sobre pessoas obrigadas a viver em permanente incerteza.
Há uma diferença entre ter um lugar perfeito e ter um lugar possível de ocupar, proteger e transformar. A casa não precisa ser ideal para oferecer alguma continuidade. Mas precisa permitir que o futuro não apareça somente como ameaça. Quando a moradia se torna estável o suficiente para acolher objetos, relações, descanso e memória, abre-se uma margem para que o sujeito não seja reduzido à urgência.
O debate contemporâneo sobre sofrimento psíquico precisa, portanto, escutar a pergunta escondida em muitas queixas: “onde posso ficar?”. Antes de procurar uma explicação exclusivamente íntima para o mal-estar, vale observar as condições que retiram das pessoas a possibilidade de permanecer. Ter uma casa não resolve a vida, mas não ter um lugar seguro e minimamente contínuo pode tornar quase tudo mais difícil. Entre o abrigo e o endereço existe uma experiência de pertencimento que também merece ser tratada como assunto público.
Palavras-chave: insegurança habitacional; sofrimento psíquico; moradia; saúde mental; laço social; cidade; psicanálise.
Referências
- OECD. Understanding and addressing inequalities in mental health. OECD Health Working Papers, 2025. Disponível em: https://www.oecd.org/content/dam/oecd/en/publications/reports/2025/05/understanding-and-addressing-inequalities-in-mental-health_17cccd01/56adb10f-en.pdf.
- WORLD HEALTH ORGANIZATION. Guidance on mental health policy and strategic action plans: Module 5. 2025. Disponível em: https://www.who.int/publications/i/item/9789240106871.
- WORLD HEALTH ORGANIZATION. Housing and health guidelines. 2018. Disponível em: https://www.who.int/publications/i/item/9789241550376.